"As produções de Chico Buarque se tornaram uma bandeira da canção de protesto contra o regime militar. Contudo, o fato de parte de sua obra estar em sintonia com aspectos da vida política do país, isso não impediu que suas músicas tivessem precioso conteúdo poético relacionado à mulher; temática que podemos exemplificar nesta canção: “Cala a Boca, Bárbara” que revela a mulher ao mesmo tempo amante e parceira de luta e também como guerrilheira. Essa canção faz parte da peça de teatro Calabar. Quando a peça se inicia, Calabar já está morto, executado pelos portugueses, que não apenas exigiram que seu nome fosse apagado de qualquer registro como proibiram que fosse pronunciado. Sua mulher, Bárbara, que é quem canta a canção, e em quem ele está intensamente presente. “Ela nunca o chama, nessa canção, pelo nome: Calabar é o “ele” a que Barbara se refere. O “cala a boca, Bárbara”, se refere a proibição da pronúncia do nome de Calabar porém serve ao seu reverso uma vez que, é esse nome que se forma, com espantosa nitidez, como uma constelação, à força da repetição do refrão: “Cala a boca, Bárbara”. Aqueles que lerem/ouvirem esta canção, incorporarão o ‘Cala a boca’ ao nome de Calabar. E o nome de Calabar conterá o nome de Bárbara: fusão de amantes apaixonados. Funde-se aqui o ‘poeta do social’ e o ‘poeta do feminino’. É neste período que Chico, além de retratar a trajetória política do país, adentra no universo feminino com uma farta produção de músicas identificadas pela inteligência brasileira como uma fase do “desbunde” do compositor. Como se a adesão ao lirismo repercutisse como rendição, tentando reduzir a presença decisiva da obra de Chico na história da música popular brasileira do século XX. (
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